Órgãos querem respostas a mortes
Órgãos querem respostas a mortes

A Ordem dos Advogados do Brasil no Pará (OAB-PA) cobrou ontem, segunda-feira (23), do governo estadual uma “investigação célere” sobre o assassinato de 35 pessoas, sendo 25 delas com características de execuções sumárias, entre a manhã de sexta-feira, 20, e a manhã de segunda, após a morte do soldado PM Rafael da Silva Costa, durante confronto armado com assaltantes em fuga.

Os números da matança foram atualizados pelo governo de Simão Jatene (PSDB), que no sábado, em nota oficial, havia apontado 27 homicídios ao mesmo tempo em que reconhecia que os crimes estariam ligados à morte do militar. O presidente da OAB, Alberto Campos, diz em nota que o Estado precisa “esclarecer os conflitos e as violações ocorridas nesta tragédia”.

Segundo Campos, infelizmente o Pará vem “amargando o quarto lugar no ranking de mortes por intervenção policial”. Ele cita dados do Conselho Nacional do Ministério Público, que em 2016 apontou o total de 237 mortes provocadas por esse tipo de intervenção. Além disso, observa que ano passado o Pará registrou 4.196 mortes violentas, representando um aumento de 11,2% em relação a 2015.

Para o deputado Carlos Bordalo (PT), que foi o relator em 2015 da CPI das Milícias, há “indícios muito fortes de envolvimento de milícias e grupos de extermínio” nessa matança do último final de semana. Bordalo disse ao Estado que na volta do recesso parlamentar irá propor ao presidente da Assembleia Legislativa, Márcio Miranda, a formação de uma comissão externa de acompanhamento das investigações que foram determinadas pelo governador Simão Jatene para identificar e punir os autores das mortes.

Bordalo chama a atenção para o "modus operandi" dos assassinos, afirmando que foi o mesmo detectado pela CPI das Milícias. E faz uma observação preocupante: “a morte que eu vou pegar como exemplo nesse caso todo é a morte de um rapaz no Bairro Curuçambá, com denúncias fortes de que um carro da polícia veio antes da própria polícia recolher os artefatos que ficaram depois das execuções, para fazer a limpeza da área”, diz, acrescentando que é comum séries de assassinatos desencadeados após morte de policiais.

“Há existência de milícias e grupos de extermínio no Pará, apesar de sobejamente comprovado tanto pelo relatório da CPI entregue dois anos atrás, como pelos fatos cotidianos fartamente noticiados todos os dias. As respostas à morte de policiais quando estes pertencem à batalhões de elite vem se repetindo desde 1994 na chacina do Tapanã. Vinte e dois anos depois voltamos a constatar que além de continuarem, assumem agora proporções mais abrangentes, contundentes e ousadas como o ataque na noite do dia 20 a um batalhão da PM no Maguari”, declarou Bordalo.

Para ele, são ‘grupos perigosos e violentos, com ramificações nas próprias corporações, por isso a presença de força de investigação externa é essencial’. “Parece que finalmente o governador solicitou a colaboração federal”, resumiu o deputado.

Sigilosos

O diretor geral do Centro de Perícias Científicas (CPC) Renato Chaves, Orlando Salgado, depois de liberar para a polícia o resultado dos exames cadavéricos das 35 vítimas, informou que os peritos “encontraram características de execução em alguns dos assassinatos”, mas não disse em quantos casos foram identificadas tais semelhanças. O Estado pediu cópia dos laudos para analisar, mas o órgão negou, alegando que só quem pode liberar tais informações à imprensa é a Secretaria de Segurança Pública.

A Divisão de Homicídios da Polícia Civil é quem cuida dos inquéritos sobre os crimes, mas por determinação superior se nega a divulgar a relação com os nomes de todas as vítimas e detalhes sobre cada morte, alegando “questões de segurança e sigilo nas investigações”. Em vários bairros de Belém, Ananindeua e Marituba familiares e amigos, entre a dor e a revolta, sepultaram seus mortos.

Rerisson Reinaldo Simões, 22 anos, por exemplo, foi velado em uma igreja evangélica no Bairro do Telégrafo. A morte dele ocorreu durante a madrugada próximo ao canal da Travessa 14 de Março. Ele já tinha servido ao Exército e atualmente, desempregado, ajudava uma irmã na venda de salgadinhos. Homens encapuzados em um carro vermelho pararam perto de Simões e atiraram contra quatro pessoas, que saíram feridas. Ele foi morto com oito tiros.

Outros homens, também encapuzados, em um carro branco, mataram Fagner Luiz Lobato, de 30 anos, quando o rapaz voltava para casa após ter comprado remédio numa farmácia para um familiar. Ele morava em Ananindeua e recebeu vários tiros na cabeça e no peito, morrendo na hora. O mesmo destino teve Edivaldo Rodrigues Gonçalves, que residia no Bairro Águas Lindas, também em Ananindeua.

Ele, que era pedreiro, estava sentado na porta de casa quando foi abordado por homens que estavam num carro preto e fuzilado com vários disparos. Testemunhas viram o carro se afastar a toda velocidade do local. Nesses três casos, como em outros, as vítimas não tinham passagens pela polícia. Números do final de semana registrados pelo interior do Pará revelam que outras 12 pessoas foram assassinadas. Somadas às 35 de Belém e região metropolitana, o saldo da violência alcança 47 mortos em menos de três dias. Um número impressionante, capaz de demonstrar que o governo estadual perdeu o controle da situação.

(Carlos Mendes)

Foto: ORM



Caro usuário. Só serão liberados os comentários com nome e sobrenome, assim como o endereço de e-mail. O portal também não aceita xingamento, piadas e trocadilhos com nomes de pessoas ou caracteres ofensivos. Seja responsável ao opinar e a sua opinião terá mais valor.

LEIA TAMBÉM
Pará tem 1º caso de violência doméstica homoafetiva

Denúncias

Pará tem 1º caso de violência doméstica homoafetiva

José Ricardo responderá por ameaça e lesão corporal grave, dentro do Artº 5º, Parágrafo único - Lei Maria da Penha.

TJ faz mutirão para acelerar processos criminais

Justiça

TJ faz mutirão para acelerar processos criminais

Operação tratará da verificação de ações penais de 6.100 réus.

GRUPO CORREIO
94 99135-0101
Envie seu conteúdo pelo WhatsApp do Correio news.
EDIÇÃO DIGITAL
Edição 3.083 de 21 e 23 de Janeiro de 2017


Mais Acessadas

NAPP desafia falta de estrutura

Sem recursos, núcleo faz o que pode para atender crianças portadoras de necessidades especiais em Parauapebas