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Ulisses Pompeu
Ulisses Pompeu é colunista colaborador do Portal Correio News e emite Opiniões sobre a Região.
Merendaram a menina bem antes do recreio
Merendaram a menina  bem antes do recreio

- Você acha que meu primeiro namorado não tentou comigo? Tentou e muito. Mas ele estava me pondo à prova pra ver se eu era moça pra casar, mulher que prestasse. Não cedi. Tivesse dado liberdade, não teria me casado com homem nenhum.

 

E foi contando, um exemplo atrás do outro, para tentar fazer a filha ver que virgindade era o bem mais inegociável que a mulher carregava na vida e para o túmulo. Dar tenência, merendar antes do recreio, perder o cabaço, deixar de ser moça... Como ouvi destas pérolas na infância e adolescência!

 

Ladainhas não pra mim, mas para minhas quatro irmãs (Nazaré e Miriam as mais perseguidas pelos rapazes). E testemunhei, bem ali, nas décadas de 70, 80 e 90 do século passado. E digo, vez ou outra, ainda escuto. Há permanências que se arrastam camufladas em qualquer tempo.

 

Eram também pra mim, verdade. Para nós, meninos machos da casa, o recado era: não deveríamos nos casar com moça já mexida, amolegada, sem hímen, fácil. Minha tia Xandu - não posso deixar de compará-la a insuportável Dorotéia (personagem de Laura Cardoso, de Gabriela) - falava de mulher furada, balde sem fundo, perdida, galinha, cadela.

 

Ela só teve uma filha, que foi embora muito cedo para as bandas de Imperatriz, mas criou uma infinidade de sobrinhas, acho que para afugentar o silêncio da casa, ao lado do marido Milton Oliveira.

 

Ela comparava a virgindade de uma fêmea ao perigo que corria uma laranja. Vinha alguém, chupava, chupava e depois jogava o bagaço fora. E aí, repetia fazendo gestos com um dedo arredondado e outro em riste, nem o mel nem a cabaça. Talvez por isso, tia Xandu tivesse o falso pudor de descascar e comer uma banana na minha frente.

 

Menina moça, na noite de núpcias tinha de sangrar. Repetia. Caso não, se levantava a suspeita de que não era pura. De ter-se dado ao desplante sem ser o noivo o primeiro. E que loucura! O prazer estava na hemorragia, no apertado do bichim, na dificuldade para se penetrar, na ferida forçada e rompimento da casta telinha de proteção... Havia quem mandasse recosturar o véu.

 

Pois então. De uma caixa de cartas, dessas adormecidas em estantes, li coisa fabulosa e revoltante. Em uma missiva destinada ao pai de um amigo meu, uma ex-moça pranteava carambolas e arrependimentos. “Você pensa que um corte de tecido restituirá o que me roubaste? Um pedaço de pano? Não sabia de teu caráter farsante.

 

E o que me prometeste? Um vestido de noiva! Depois de tanto resistir, deitei-me contigo pelo gosto de tê-lo e crédula de que tivesse palavra. Mas não, um moleque, um cafajeste. Deixa estar, deixa estar... Terás filha e rogo para que nenhuma delas suba moça ao altar. E que toda boca, todos os ouvidos, todas as línguas não te deixem sair à rua de cabeça levantada.

 

Não foi bem assim que o agouro pegou. Ismênia, uma das filhas, a mais sonsa, a que se dizia sem pecado, evangélica, teve o nome corrido nas esquinas quando se marcou o casamento. Já teria sido violada e por uma rua inteira. Brincadeira de esconde-esconde, pega-pega, cai no poço, 31 Alerta, comidinha de mentirinha...

 

Para tirar a prova e evitar tragédia entre os pais, acertaram a investigação de virgindade. No Instituto Médico Legal, numa sala o assunto sempre foi relacionado à mortificação, constataram que a mocinha era intacta.

 

E era verdade. Ismênia havia aprendido com meninos que se apeteciam por meninos que tinha uma alternativa monossilábica para manter-se virgem. Logo ela, tão provida. Casou-se pura, apesar de falada.

 

Hoje em dia, virgindade virou artigo de luxo. As meninas estão transando pela primeira vez cada ano mais cedo e o que antes era mito, virou motivo de chacota.

 

* O autor é jornalista do CORREIO há 20 anos e escreve crônica na edição de quinta-feira



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